Durante décadas, o café teve má fama junto de quem se preocupa com o coração. “Sobe a tensão”, “faz mal ao ritmo cardíaco”, “é melhor evitar”. Muitos doentes ainda chegam à consulta com esta ideia enraizada.
Em 2026, a American Heart Association publicou na revista Circulation uma extensa revisão científica dedicada especificamente à relação entre cafeína, café e doença cardiovascular. Reuniu a evidência mais recente, incluindo vários ensaios clínicos randomizados que só nos últimos anos começaram a estar disponíveis. Neste artigo resumo o que interessa saber, sem os termos técnicos, e respondo às perguntas que mais frequentemente me chegam sobre este tema.
O café faz mal ao coração?
Não, e a evidência mais recente vai mesmo no sentido contrário. Para a grande maioria dos adultos, o consumo moderado de café associa-se a menor risco de doença coronária, insuficiência cardíaca, AVC e mortalidade geral, não a maior risco.
Isto é uma mudança relativamente importante face ao que se pensava há alguns anos. Estudos mais antigos, de desenho menos rigoroso, tinham levantado a suspeita de que o café pudesse ser prejudicial. Estudos mais recentes e melhor conduzidos não confirmaram essa preocupação.
Quantos cafés posso beber por dia?
A recomendação da declaração científica é de até 400 mg de cafeína por dia, o que corresponde a cerca de 3 a 5 chávenas de 240 ml de café tipo filtro.
Isto não se aplica diretamente à bica portuguesa, que é uma dose muito mais concentrada num volume muito menor. Fazendo a conversão pela quantidade de cafeína (uma bica tem, em média, 60 a 65 mg), o equivalente prático para quem bebe café tipo expresso, Nespresso ou máquina de grão fica próximo de 4 a 5 cafés por dia.
O risco mais baixo de doença cardiovascular parece situar-se, de forma consistente em vários estudos, à volta de 3 a 4 chávenas por dia, não sendo vantajoso ultrapassar muito este valor.
Há diferença entre bica, cafeteira italiana e café filtrado?
Sim, e a diferença está numa substância chamada cafestol, presente no óleo natural do grão de café. É aquela películazinha oleosa que por vezes se vê à superfície do café feito em cafeteira francesa ou café turco.
O cafestol tem um efeito conhecido de subir o colesterol LDL (o chamado “mau colesterol”). A quantidade que chega à chávena depende do método de preparação:
• Café filtrado (papel): o filtro retém quase todo o cafestol. É o método com menor impacto no colesterol.
• Bica, Nespresso, máquinas de grão (espresso): sem filtro de papel, mas com contacto muito rápido entre água e café. Quantidade intermédia.
• Cafeteira italiana (moka): também sem filtro de papel, com contacto mais prolongado. Mais cafestol do que o espresso.
• cafeteira francesa e café turco: sem qualquer filtro, longo tempo de contacto. É o método com mais cafestol.
• Café instantâneo e descafeinado: praticamente sem cafestol, devido ao processo de fabrico.
Na prática, isto só é clinicamente relevante para quem já tem o colesterol elevado e bebe várias chávenas por dia de café sem filtro. Para a maioria das pessoas, com consumo moderado, não é motivo de preocupação.
Curiosamente, o cafestol tem também sido estudado por outras propriedades, incluindo efeitos anti-inflamatórios e possível ação protetora no fígado, ainda que a maior parte desta investigação seja em laboratório e não em pessoas, pelo que não se pode ainda tirar conclusões definitivas sobre estes benefícios.
O café aumenta a tensão arterial?
A relação é mais complexa do que um simples “sim” ou “não”. A cafeína pode provocar uma subida transitória da tensão arterial logo após o consumo, sobretudo em quem não tem hábito. Com o uso regular, desenvolve-se tolerância, e o efeito a longo prazo tende a ser mínimo para a maioria das pessoas.
Quem tem hipertensão mal controlada, ou sensibilidade especial à cafeína, pode ter uma resposta mais marcada e deve conversar com o seu médico sobre o que é razoável no seu caso.
O café aumenta o risco de arritmias como a fibrilhação auricular?
Ao contrário do que muitos doentes com arritmias ainda ouvem dizer, a evidência mais recente aponta na direção oposta. Um ensaio clínico randomizado publicado recentemente mostrou que, em doentes com fibrilhação auricular, manter o consumo habitual de café associou-se a 39% menos risco de recorrência da arritmia, comparado com evitar completamente o café e a cafeína.
Já as extrassístoles ventriculares (aquelas “falhas” que por vezes se sentem no peito) podem aumentar de frequência com o consumo de cafeína, mesmo em quantidades habituais. Se sente estas sensações com frequência, vale a pena discutir com o seu médico se faz sentido ajustar o consumo.
E a diabetes e o colesterol?
O consumo habitual de café associa-se de forma consistente a menor risco de diabetes tipo 2, com reduções que chegam a 20 a 30% em quem bebe entre 3,5 e 5 chávenas por dia, nos estudos populacionais. Este efeito parece estar mais ligado a outros compostos do café do que à cafeína propriamente dita, já que o café descafeinado mostra benefício semelhante.
Quanto aos lípidos, a cafeína isolada não tem impacto relevante no colesterol. O que sobe o colesterol é o cafestol presente no café sem filtro, como já foi explicado acima.
Bebidas energéticas são o mesmo que café?
Não, e esta distinção é importante, sobretudo para os pais de adolescentes e jovens adultos (até os próprios 😅). Os benefícios cardiovasculares observados com o café não se estendem às bebidas energéticas ou à cafeína em cápsulas ou pó.
As bebidas energéticas têm sido associadas a subidas significativas da tensão arterial e a episódios de arritmias, incluindo em jovens saudáveis sem qualquer fator de risco conhecido. A combinação de cafeína com outros ingredientes, como a taurina, parece potenciar estes efeitos negativos.
Quem deve ter cuidados especiais com o café?
• Grávidas: o corpo metaboliza a cafeína mais lentamente durante a gravidez, pelo que os limites recomendados são mais baixos. Fale com o seu médico sobre o valor adequado ao seu caso.
• Hipertensão mal controlada: pode existir maior sensibilidade ao efeito da cafeína na tensão arterial.
• Arritmias conhecidas: apesar da evidência global ser tranquilizadora, cada caso deve ser avaliado individualmente com o cardiologista.
• Colesterol elevado: se bebe várias chávenas por dia de café sem filtro (bica, italiana, café de cafeteira francesa), pode valer a pena considerar café filtrado.
• Sintomas como palpitações, ansiedade ou insónia frequentes: são sinal para reduzir o consumo, independentemente das recomendações gerais.
Em resumo
• Consumo moderado de café (até 400 mg de cafeína/dia, cerca de 4 a 5 bicas) é seguro para a maioria dos adultos e associa-se a menor risco cardiovascular, não maior;
• O risco mais baixo de doença cardiovascular observa-se por volta de 3 a 4 chávenas/dia;
• Café sem filtro (bica, cafeteira italiana, cafeteira francesa) tem mais cafestol, que sobe o colesterol LDL; café filtrado e descafeinado têm muito menos;
• Café associa-se a menor risco de fibrilhação auricular, apesar de poder aumentar ligeiramente as extrassístoles ventriculares;
• Bebidas energéticas não são equivalentes ao café e associam-se a risco cardiovascular, sobretudo em jovens;
• Grávidas, pessoas com hipertensão mal controlada, arritmias conhecidas ou colesterol elevado devem individualizar a decisão com o seu médico assistente.
Se ficou com dúvidas sobre o seu caso concreto, fale com o seu médico de família, que conhece a sua história clínica e pode ajudá-lo a perceber o que faz sentido para si.
acesso ao artigo original https://www.ahajournals.org/doi/10.1161/CIR.0000000000001454