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Médico de Familía há 12 anos. Especialista em doenças cardiovasculares, renais e pulmonares

Rastreio Cancro Colo Útero

Rastreio do colo do útero

Responda a 4 perguntas rápidas e veja, na hora, a orientação para o seu caso, com base nas normas da Direção-Geral da Saúde.

Responda “Sim” aqui mesmo que tenha sido há menos de 5 anos, ou mesmo que já tenha repetido o rastreio depois disso.

Por favor responda a todas as perguntas, com uma idade válida.

Esta ferramenta dá uma orientação geral, baseada nas normas da Direção-Geral da Saúde. Não substitui uma consulta médica.

Portugal teve, durante décadas, uma mortalidade por cancro do colo do útero mais alta do que a maioria dos países da Europa Ocidental. Não por falta de vontade médica, mas por termos um rastreio maioritariamente oportunista, feito quando a mulher ia à consulta, em vez de um programa organizado, com convocatória ativa a toda a população elegível.

Em outubro de 2024, isso mudou. A Direção-Geral da Saúde publicou uma norma nova, que substitui o teste que a maioria de nós conhece, o Papanicolau, por um teste diferente, e alarga o intervalo entre rastreios de 3 para 5 anos. Neste artigo explico o que mudou, para quem é, e respondo às perguntas que mais me têm chegado. Se ainda não respondeu ao questionário no topo desta página, pode fazê-lo agora e obter uma orientação específica para o seu caso.

O que mudou? Já não se faz o Papanicolau?

Deixou de ser esse o teste de primeira linha. Durante 80 anos, o rastreio consistiu em observar ao microscópio as células do colo do útero, à procura de alterações já instaladas, a citologia, vulgarmente chamada Papanicolau. Hoje, o teste primário procura antes o vírus que está na origem de quase todos estes cancros: o HPV de alto risco.

É uma mudança de pergunta, não só de método. Em vez de perguntar “já há células alteradas?”, pergunta-se “está presente o vírus que pode vir a causar essa alteração?”. Por detetar mais cedo, o intervalo entre testes pode ser maior: 5 anos, em vez dos 3 anteriores.

Quem faz, e a partir de que idade?

Depende do seu grupo de risco:

População geral: dos 30 aos 69 anos.

Grupos de risco elevado (infeção por VIH, transplantados, ou doença autoimune a fazer tratamento imunossupressor): dos 25 aos 69 anos, porque nestes grupos a infeção persiste com mais facilidade e o risco começa mais cedo.

Se já fez uma histerectomia total, sem colo do útero, o rastreio não se aplica ao seu caso.

A colheita pode ser feita por mim, sem ir à consulta?

Sim, em determinadas condições, no entanto, até à data, o rastreio organizado ainda não oferece esses kits. A norma prevê que a colheita seja feita preferencialmente por um profissional de saúde, mas permite a autocolheita, feita pela própria mulher, quando há preferência explícita nesse sentido, ou quando a mulher não compareceu a dois convites consecutivos.

A autocolheita não é um teste inferior. Uma meta-análise portuguesa, publicada na Revista Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, encontrou uma sensibilidade de 86,4% e uma especificidade de 91,8%, sem diferenças relevantes face à colheita feita por profissional, e mostrou que 62,8% das mulheres preferem esta opção. É sobretudo relevante para quem falta aos convites, tem atrofia vaginal pós-menopausa, dispareunia (dor na penetração), história de violência sexual, mobilidade reduzida, ou simplesmente recusa o espéculo.

O resultado veio positivo. O que significa, e o que acontece a seguir?

Primeiro, o mais importante: HPV positivo não é cancro. É a deteção do vírus, e a grande maioria das mulheres que testam positivo nunca chega a desenvolver qualquer lesão. A partir daqui, há três caminhos possíveis, consoante o genótipo encontrado.

HPV tipo 16 ou 18: os dois genótipos mais associados a cancro do colo do útero. Referenciação direta para a Unidade de Patologia Cervical, com resposta em, no máximo, 30 dias (quando falamos em SNS). Não significa cirurgia, significa avaliação mais próxima, com colposcopia.

Outro genótipo de alto risco, que não o 16 nem o 18: faz-se primeiro um segundo teste, chamado dupla marcação p16/Ki67, numa amostra do colo do útero. Este teste não confirma apenas a presença do vírus, verifica se ele está mesmo a alterar as células. Se negativo, repete-se o rastreio em 1 ano. Se positivo, segue então para a Unidade de Patologia Cervical.

Resultado inconclusivo: repete-se a colheita com um profissional de saúde, assim que possível.

Uma nota importante para quem fez autocolheita: se o resultado for positivo para um genótipo que não o 16 nem o 18, é necessária uma nova colheita feita por um profissional, porque o teste p16/Ki67 exige amostra do próprio colo, não da vagina.

O teste só deteta HPV que pode causar cancro. E os outros tipos, os das verrugas genitais?

O teste de rastreio pesquisa apenas genótipos de HPV de alto risco (16, 18, 31, 33, 35, 39, 45, 51, 52, 56, 58, 59, 66 e 68). Não pesquisa os genótipos associados a verrugas genitais, como o 6 ou o 11, porque estes têm um comportamento clínico diferente e não entram neste rastreio.

Ou seja, não existe “positivo, mas de baixo risco” dentro deste teste. O resultado só tem dois caminhos: positivo para algum genótipo de alto risco, ou negativo. Verrugas genitais visíveis são um diagnóstico clínico à parte, por observação direta, e não interferem no intervalo de 5 anos.

HPV positivo é sinal de infidelidade?

Não, e esta é talvez a dúvida mais carregada de ansiedade que recebo. O HPV é uma infeção sexualmente transmissível extremamente comum, quase toda a gente sexualmente ativa contacta com ele em algum momento da vida. O que torna esta pergunta difícil de responder é a biologia do próprio vírus: pode ficar latente, sem sinais, durante anos ou mesmo décadas antes de um teste o detetar.

Isto significa que um resultado positivo não permite saber quando a infeção foi adquirida, nem por quem. Não é possível, com a tecnologia atual, atribuir uma data de contágio a um teste positivo. Por isso, um resultado positivo, mesmo numa relação de longa duração, nunca é prova de infidelidade.

Testar com mais frequência não seria mais seguro?

Não, e o risco de testar cedo demais não é o que a maioria pensa. Não se trata de o teste “falhar”, trata-se de sobrediagnóstico: detetar infeções que o próprio sistema imunitário resolveria sozinho, sem nunca causar nenhum dano, e encaminhar essas mulheres para colposcopias, biópsias e meses de ansiedade desnecessária.

Sabemos que a maioria das infeções por HPV desaparece espontaneamente em 1 a 2 anos, e que, mesmo quando persiste, o percurso até um cancro demora tipicamente mais de uma década. É essa janela larga que sustenta um intervalo de 5 anos entre testes negativos, sem perda de segurança.

Que sintomas não devem esperar pelo próximo rastreio?

No início, este cancro tipicamente não dá sintomas, é por isso que o rastreio de base populacional existe. Mas, se surgirem, os seguintes não devem esperar pela data do próximo teste, mesmo que o último tenha sido negativo:

  • Hemorragia fora do período menstrual, após a menopausa, ou associada à relação sexual;
  • Corrimento vaginal alterado, aumentado, com odor fétido ou com sangue;
  • Dor pélvica ou dor durante a relação sexual;
  • Qualquer outra queixa ginecológica que não saiba bem descrever, mas que sinta fora do habitual.

Nestes casos, marque consulta com o seu médico de família ou com ginecologia. Um teste HPV negativo recente não invalida a necessidade de investigar sintomas novos.

O exame é comparticipado? Preciso de receita?

Sim. Tal como os restantes rastreios de base populacional organizados pelo SNS, este teste é gratuito para as utentes elegíveis, sem custos associados à colheita, ao envio ou à análise. Se tem uma condição de risco elevado e ainda não foi contactada para o programa, fale com o seu médico de família, que pode referenciá-la diretamente. Se não tem médico de família no SNS (infelizmente há muitas pessoas sem), aconselho procurar alternativas como médicos de medicina geral e familiar ou ginecologistas no setor privado.

Em resumo

  • Teste primário: pesquisa de HPV de alto risco, não citologia isolada;
  • População geral: dos 30 aos 69 anos, repetição de 5 em 5 anos se negativo;
  • Grupos de risco elevado: dos 25 aos 69 anos;
  • Autocolheita com sensibilidade sobreponível à colheita profissional;
  • HPV 16 ou 18 positivo: Unidade de Patologia Cervical, prioridade 30 dias;
  • Outro genótipo de alto risco positivo: teste p16/Ki67, negativo repete em 1 ano, positivo segue para UPC;
  • HPV positivo não é cancro, e não é prova de infidelidade;
  • Hemorragia fora do habitual, dor pélvica ou corrimento alterado não esperam pelo rastreio.

Se ficou com dúvidas sobre o seu caso concreto, use o questionário no topo desta página, ou fale com o seu médico de família.


Notas e transparência

Este artigo tem fins exclusivamente educativos e informativos. Não substitui, em circunstância alguma, uma consulta médica. Também não estabelece qualquer relação médico-doente. As decisões sobre rastreio, exames e tratamentos devem ser sempre tomadas em conjunto com o seu médico assistente, que conhece a sua situação clínica individual.

A informação apresentada baseia-se na evidência científica e nas normas de orientação clínica em vigor à data de publicação (setembro de 2026), nomeadamente as normas da Direção-Geral da Saúde n.º 09/2024, de 17 de outubro de 2024, e n.º 010/2024, de 12 de novembro de 2024. As recomendações podem evoluir; consulte sempre fontes oficiais ou o seu médico para a informação mais recente.

Em situações de doença aguda ou sinais de alarme, procure um médico, contacte o SNS 24 (808 24 24 24) ou dirija-se a um serviço de urgência.

A informação constante neste blogue deve, sempre que necessário, ser abordada com o seu médico e está sujeita a atualizações a que os leitores devem estar atentos.

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