O cancro do cólon e reto é a segunda causa de cancro e de morte por cancro em Portugal. E é também um dos poucos cancros que se pode mesmo prevenir, não só detetar cedo, porque a maioria começa por um pólipo benigno que, removido a tempo, nunca chega a ser cancro.
Em outubro de 2025, a Direção-Geral da Saúde publicou duas normas novas sobre este rastreio: uma para a população em geral, outra para quem tem história familiar da doença. Participei como perito nas equipas que construíram as duas. Neste artigo explico o que significam, para quem são, e respondo às perguntas que mais me têm chegado.
Existem dois rastreios diferentes. Qual é o meu?
Depende do seu risco:
Risco médio (a maioria das pessoas): dos 50 aos 74 anos, sem história familiar significativa, sem doença inflamatória intestinal, sem síndromes hereditárias. O rastreio faz-se com um teste simples ao sangue oculto nas fezes.
Risco aumentado: se tem um familiar de primeiro grau (pai, mãe, irmão ou irmã) diagnosticado com cancro do cólon e reto antes dos 50 anos, ou dois familiares de primeiro grau com a doença, em qualquer idade. Nestes casos, o rastreio começa mais cedo, dos 40 aos 74 anos, e o exame é diretamente a colonoscopia.
Misturar os dois caminhos é o erro mais comum que vejo. Uma pessoa de risco aumentado que espera pelo convite do rastreio populacional pode estar a perder anos preciosos de vigilância.
Como funciona o rastreio de risco médio?
O teste primário é a pesquisa de sangue oculto nas fezes, por método imunoquímico, mais conhecido pela sigla FIT. Funciona assim:
- Recebe em casa um kit de colheita, enviado até 45 dias depois do convite ou prescrito por um médico numa consulta;
- Recolhe uma pequena amostra de fezes, em casa, sem qualquer desconforto;
- Devolve a amostra
- O resultado é processado em até 7 dias.
Se o resultado for negativo, repete o teste de 2 em 2 anos. Se for positivo, é encaminhado automaticamente para colonoscopia, com prioridade máxima de 30 dias.
O FIT dói? É preciso preparação especial?
Não. É um teste que faz em casa, sem qualquer desconforto físico, sem preparação intestinal, sem picada. É literalmente uma pequena amostra de fezes recolhida com o kit que lhe é enviado.
Um resultado positivo no FIT significa que tenho cancro?
Não, e este é o ponto que gera mais ansiedade desnecessária. O FIT deteta vestígios de sangue invisíveis a olho nu, que podem ter várias causas: pólipos, hemorroidas, pequenas fissuras, entre outras. Um resultado positivo significa apenas que é preciso investigar melhor com colonoscopia, não que tem a doença. A grande maioria dos resultados positivos não corresponde a cancro.
Como funciona o rastreio de risco aumentado?
Se tem história familiar significativa, o percurso é mais direto:
- Consulta prévia, agendada até 30 dias após o convite OU prescrito por um médico
- Colonoscopia, agendada até 15 dias depois dessa consulta;
- Se negativa e sem lesões, repete-se em 5 anos.
Aqui não há teste de fezes como primeira linha. Vai diretamente à colonoscopia, porque é o exame com maior sensibilidade para detetar e já remover lesões no mesmo procedimento.
Porque é que o risco aumentado vai direto à colonoscopia e não ao FIT?
Duas razões. Primeiro, quem tem história familiar significativa tem um risco relativo mais alto, e a colonoscopia deteta mais lesões do que o FIT, sobretudo pólipos pequenos que ainda não sangram. Segundo, a colonoscopia permite diagnóstico e tratamento no mesmo momento: se encontrar um pólipo, remove-o ali, sem precisar de um segundo procedimento.
Se, ainda assim, preferir não fazer colonoscopia ou recusar fazê-la, tem sempre o direito de optar pelo FIT, mesmo antes dos 50 anos, a partir dos 40. O que a norma não permite é ficar sem qualquer rastreio.
A colonoscopia dói? Como é a preparação?
Costuma ser feita sob sedação, supervisionada por um médico anestesiologista, o que reduz muito o desconforto durante o exame. A preparação intestinal (a parte que a maioria das pessoas mais teme) é feita com uma solução em duas tomas (chamada split dose), que é mais bem tolerada e mais eficaz do que a toma única usada no passado. Terá sempre uma consulta antes do exame para tirar dúvidas e perceber exatamente o que esperar.
A colonoscopia é segura?
É um exame frequente e, quando feito em unidades certificadas e experientes, é considerado seguro. Como qualquer procedimento médico tem riscos, mas são globalmente baixos, inferiores a 1%. As unidades que fazem estas colonoscopias em Portugal têm de cumprir critérios de qualidade definidos pela Sociedade Europeia de Endoscopia Digestiva e passam por auditorias regulares, o que inclui, por exemplo, verificar se o exame chegou mesmo ao fim do intestino e se a preparação estava adequada.
Já que vou fazer a colonoscopia, devo aproveitar para fazer também endoscopia digestiva alta?
Esta é uma das perguntas que mais me chegam, e a resposta correta é: depende, não é uma decisão automática só porque “já vai estar sedado”.
A endoscopia digestiva alta (que observa o esófago, o estômago e o duodeno) não é um exame de rastreio de rotina em Portugal, ao contrário da colonoscopia. Fazer os dois exames na mesma sessão não é isento de risco: a sedação é mais prolongada, o tempo de recuperação aumenta, e a própria endoscopia alta tem os seus riscos próprios, ainda que baixos. Juntar um exame sem indicação clínica não traz benefício comprovado e apenas soma risco desnecessário.
Faz sentido combinar os dois exames quando há uma razão concreta para isso, por exemplo:
- Sintomas digestivos altos persistentes (azia, dificuldade em engolir, dor no estômago, enfartamento precoce);
- Anemia por défice de ferro sem causa identificada, que pode ter origem tanto no aparelho digestivo alto como no baixo;
- História familiar significativa de cancro gástrico;
- Necessidade de vigilância de uma condição já conhecida, como esófago de Barrett ou gastrite atrófica;
- Suspeita ou confirmação de infeção por Helicobacter pylori que precise de avaliação endoscópica.
Se não tem nenhuma destas situações, e o objetivo é apenas o rastreio do cólon, não há evidência que sustente juntar os dois exames por rotina. Se tiver dúvidas sobre o seu caso, é o seu médico, não a conveniência de estar sedado, que deve decidir se há indicação para a endoscopia alta.
Fazer o FIT todos os anos protege mais do que de 2 em 2 anos?
Não é isso que a evidência mostra. A Agência Internacional para a Investigação em Cancro considera que há evidência suficiente de que o FIT feito a cada 2 anos já reduz a mortalidade por esta doença. O intervalo de 2 anos não é um limite arbitrário, é o que o conjunto da evidência científica sustenta como eficaz.
Que sintomas não devem esperar pelo rastreio?
Independentemente da idade ou do programa de rastreio em que se encaixa, procure o seu médico sem esperar se tiver:
- Sangue nas fezes ou sangramento retal;
- Alteração persistente do hábito intestinal (diarreia ou obstipação que não melhoram);
- Dor abdominal persistente;
- Perda de peso sem explicação;
- Cansaço ou anemia inexplicados.
Aqui não se trata de rastreio, mas de avaliação diagnóstica, e não se espera pela idade nem pela carta de convocatória.
Tenho doença inflamatória intestinal. O meu rastreio é diferente?
Sim. Doenças como a doença de Crohn ou a colite ulcerosa, sobretudo as formas mais extensas e ativas, aumentam o risco desta neoplasia e exigem vigilância endoscópica própria, definida pelo seu gastrenterologista, fora do programa de rastreio geral. O mesmo se aplica a quem tem síndromes hereditárias conhecidas, como a polipose adenomatosa familiar ou o síndrome de Lynch, que têm protocolos de vigilância específicos e muito mais precoces, nalguns casos desde a adolescência.
Que fatores aumentam o risco? O que posso mudar?
Fatores que não controlamos: a idade (o risco sobe a partir dos 50 anos), a história familiar e genética, e a presença de doença inflamatória intestinal.
Fatores que podemos mudar:
- Consumo de carne vermelha e processada em excesso;
- Sedentarismo, a atividade física regular reduz o risco;
- Excesso de peso e obesidade;
- Álcool;
- Tabaco.
Uma alimentação rica em fibra, fruta e vegetais tem, pelo contrário, um efeito protetor. Fale com o seu médico antes de considerar qualquer suplemento ou medicação com o objetivo específico de reduzir este risco. Nalguns casos, como o uso preventivo de aspirina, pode haver benefício, mas é uma decisão individual, que pesa riscos e benefícios, e nunca uma recomendação genérica.
O exame é comparticipado? Preciso de receita?
Sim, os dois rastreios, tanto o FIT como a colonoscopia dentro do programa organizado, são gratuitos para o utente, sem custos associados ao kit, ao envio, ou à análise. A colonoscopia de rastreio, quando indicada, também não tem custos para quem está integrado no programa. Caso pretenda realizar estes exames no setor privado, a maioria dos subsistemas e seguros comparticipam o exame, devendo na mesma ser prescrito por um médico.
Nestes programas organizados, o convite parte do sistema, mas se tiver história familiar significativa e ainda não foi contactado, não espere: fale com o seu médico de família, que pode referenciá-lo diretamente ou procure outro médico informado na área (habitualmente medicina geral e familiar)
Onde faço o rastreio?
Se já está inscrito no programa de rastreio de base populacional, vai receber o kit de FIT em casa automaticamente, consoante a implementação na sua região. Se tem história familiar e ainda não foi contactado, ou quer confirmar se a sua região já tem o programa ativo, fale com o seu médico de família.
Para colonoscopias fora do rastreio organizado (por exemplo, por indicação clínica direta), pode pesquisar prestadores no mecomais.com, filtrando por localidade e tipo de convenção.
Em resumo
- Risco médio: FIT em casa, de 2 em 2 anos, dos 50 aos 74 anos;
- Risco aumentado (história familiar significativa): colonoscopia direta, dos 40 aos 74 anos, repetida a cada 5 anos se negativa;
- Resultado positivo no FIT não é diagnóstico, é indicação para investigar;
- Colonoscopia até 30 dias após FIT positivo, ou até 15 dias após a consulta prévia no programa de risco aumentado;
- Sintomas como sangue nas fezes, alteração do trânsito intestinal ou perda de peso não esperam pelo rastreio;
- Doença inflamatória intestinal ou síndromes hereditárias têm vigilância própria, definida pelo especialista.
Se ficou com dúvidas sobre o seu caso concreto, fale com o seu médico de família, que conhece a sua história e pode indicar-lhe o caminho certo.
Notas e transparência
Este artigo tem fins exclusivamente educativos e informativos. Não substitui, em circunstância alguma, uma consulta médica. Também não estabelece qualquer relação médico-doente. As decisões sobre rastreio, exames e tratamentos devem ser sempre tomadas em conjunto com o seu médico assistente, que conhece a sua situação clínica individual.
A informação apresentada baseia-se na evidência científica e nas normas de orientação clínica em vigor à data de publicação (julho de 2026), nomeadamente as normas da Direção-Geral da Saúde n.º 011/2025 e n.º 012/2025, ambas de 20 de outubro de 2025. As recomendações podem evoluir; consulte sempre fontes oficiais ou o seu médico para a informação mais recente.
Declaração de interesses: o autor integrou o Painel de Peritos de ambas as normas da DGS aqui referidas. As opiniões aqui expressas são pessoais e não vinculam a DGS nem qualquer instituição a que o autor esteja ligado.
Em situações de doença aguda ou sinais de alarme, procure um médico, contacte o SNS 24 (808 24 24 24) ou dirija-se a um serviço de urgência.