O rastreio do cancro da mama mudou. E muita gente ainda não sabe.
Agora abrange as mulheres dos 45 aos 74 anos. Antes era dos 50 aos 69. O exame recomendado também mudou: passou a ser a mamografia 3D, também chamada tomossíntese.
Estas alterações constam da norma da Direção-Geral da Saúde publicada em 2024. Participei nessa norma como perito. Neste artigo respondo às perguntas que mais me têm chegado, incluindo as que continuaram a surgir depois de publicar este texto pela primeira vez.
O que mudou no rastreio?
Duas coisas essenciais:
A idade. O rastreio organizado passa agora a incluir as mulheres entre os 45 e os 74 anos. Isto aplica-se a quem não tem sintomas nem risco aumentado. O exame repete-se de 2 em 2 anos. São quase três décadas de vigilância, mais 10 anos do que no modelo anterior.
O exame. A mamografia com tomossíntese (3D) passou a ser o exame recomendado. Substitui a mamografia convencional (2D).
Além disso, o seu médico de família já pode prescrever este exame no SNS. Os seguros e subsistemas de saúde, como a ADSE, a SAMS ou as seguradoras, também já o comparticipam.
Qual a diferença entre a mamografia 2D e a 3D?
A mamografia 2D “fotografa” a mama numa imagem plana. O problema é que os tecidos ficam sobrepostos, como olhar para um livro fechado: vê a capa, mas não as páginas. Uma alteração pequena pode ficar escondida atrás de tecido normal.
A tomossíntese (3D) obtém várias imagens em diferentes ângulos. Depois, reconstrói essas imagens em “fatias” finas. O radiologista consegue assim analisar a mama camada a camada, como folhear o livro página a página. O resultado: deteta mais cancros em fase inicial, sobretudo em mamas densas, e reduz a necessidade de repetir exames ou fazer biópsias desnecessárias.
A mamografia 3D dói mais do que a 2D?
Não. A compressão da mama é semelhante nos dois exames. E continua a ser necessária: melhora a qualidade da imagem e até reduz a dose de radiação. A aquisição das imagens na 3D pode demorar mais alguns segundos. Mas a pressão exercida não é maior.
O desconforto é real. Não o desvalorize, mas saiba que é breve, apenas alguns segundos por posição, e pode ser minimizado. Se tem mamas sensíveis, evite marcar o exame na semana antes da menstruação. Avise a técnica se sentir dor: a compressão pode ser ajustada. Um exame desconfortável durante segundos pode poupar-lhe meses de tratamentos evitáveis.
E a radiação? A 3D irradia mais?
A dose de radiação da tomossíntese é semelhante ou ligeiramente superior à da mamografia 2D. Mesmo assim, mantém-se muito abaixo dos limites de segurança. Muitos equipamentos modernos reconstroem a imagem 2D a partir da própria tomossíntese (a chamada 2D sintetizada), evitando duplicar a exposição. Para ter uma referência: a dose de uma mamografia equivale a poucas semanas da radiação natural a que todos estamos expostos no dia a dia. O benefício de detetar um cancro cedo supera largamente este risco.
A ecografia substitui a mamografia?
Não. E isto é importante, porque circula muita desinformação sobre este tema. A ecografia mamária é um excelente exame complementar. Ajuda a caracterizar nódulos e é útil em mamas densas. Mas não deteta bem as microcalcificações, muitas vezes o primeiro sinal de um cancro em fase muito inicial. Por isso, nenhuma sociedade científica recomenda a ecografia como exame de rastreio isolado.
E não: a compressão da mamografia não “esmaga as células” nem provoca cancro. Esta ideia, que infelizmente se vê nas redes sociais, não tem qualquer fundamento científico.
Devo fazer a ecografia junto com a mamografia?
Não por rotina. No rastreio de uma mulher sem sintomas e sem risco aumentado, a mamografia já é suficiente. A ecografia soma quando o radiologista a considera necessária (por exemplo, mamas muito densas ou uma alteração a esclarecer) ou quando há queixas. É o médico e o radiologista que avaliam isso caso a caso. Mais exames não significa automaticamente melhor cuidado.
Tenho um nódulo conhecido há anos: preciso de repetir sempre eco e mamografia?
Esta é uma das perguntas que mais me chegou depois deste artigo. A resposta certa depende sempre do que consta no seu processo clínico. Por isso, não é possível, nem correto, responder ao caso específico de cada pessoa num artigo geral. Mas os princípios são estes:
- Um nódulo já caracterizado como benigno (por exemplo, um fibroadenoma típico) costuma ter um plano de vigilância já definido pelo radiologista ou pelo seu médico. Pode ser reavaliação anual, ou até alta da vigilância, consoante as características.
- Se o nódulo nunca foi biopsado ou totalmente caracterizado, ou se mudou de tamanho, textura ou aparência, isso pode justificar reavaliação mais próxima com ecografia e/ou mamografia.
- A combinação eco + mamografia costuma ser usada quando há algo concreto a monitorizar, não é uma rotina que se aplique a todos da mesma forma.
Um ponto importante: pode reparar numa alteração entre o que lhe disseram e o que consta escrito num relatório, por exemplo, quanto ao lado da mama. Nesse caso, não tente resolver essa dúvida sozinha nem através das redes sociais. Contacte a clínica ou o médico que emitiu o relatório para esclarecer. É um detalhe que só se confirma com acesso ao processo e às imagens.
Se tem um nódulo em vigilância e não sabe qual o plano de seguimento definido para si, pergunte a quem o acompanha. Normalmente é o seu médico de família ou o radiologista que fez o último exame.
Fazer mamografia todos os anos previne mais?
Esta é uma das confusões mais comuns, e compreensível. Dois esclarecimentos:
O rastreio não previne o cancro. Deteta-o precocemente e, nessa fase, as hipóteses de cura são muito maiores e os tratamentos menos agressivos. Prevenir é atuar nos fatores de risco, que descrevo mais abaixo.
Mais vezes não é melhor. A evidência científica definiu o intervalo de 2 anos porque oferece o melhor equilíbrio. De um lado, deteta cancros a tempo. Do outro, evita os danos do excesso de exames: falsos positivos, com a ansiedade e as biópsias que provocam, sobrediagnóstico e radiação acumulada sem benefício. Em mulheres de risco médio, fazer mamografias anuais não demonstrou salvar mais vidas.
Há exceções: mulheres com risco aumentado podem precisar de vigilância mais apertada. Mas essa decisão é individualizada com o seu médico, não uma regra geral.
Quem tem só uma mama também faz rastreio? E quem já não tem nenhuma?
Quem foi operada a um cancro da mama (com remoção total ou parcial de uma mama) não está no rastreio populacional. Está em vigilância: um seguimento mais próximo e personalizado, definido pela equipa que a acompanha. A mama restante precisa, sim, de continuar a ser avaliada com regularidade.
Quem fez mastectomia total bilateral (remoção das duas mamas) deixa de ter indicação para mamografia. Mantém, ainda assim, a vigilância clínica definida pelos seus médicos.
Tenho vários casos de cancro da mama na família. E agora?
Tem familiares diretos com cancro da mama? Sobretudo mãe, irmãs ou filhas, casos antes dos 50 anos, cancro nos dois lados, ou casos de cancro do ovário ou da mama no homem na família. Se sim, fale com o seu médico de família. Poderá ter indicação para:
- Começar a vigilância mais cedo do que os 45 anos;
- Ser referenciada a uma consulta de risco familiar e, nalguns casos, fazer estudo genético (por exemplo, dos genes BRCA1/BRCA2);
- Fazer exames adicionais, como a ressonância magnética mamária.
Ter história familiar não significa que vai ter cancro, significa que merece um plano à medida, e ele existe.
Quando devo começar o rastreio mais cedo?
O rastreio organizado começa aos 45 anos. Porquê? Abaixo dessa idade, e sem fatores de risco, o balanço entre benefícios e danos não favorece o exame sistemático. Mas há duas situações em que a avaliação começa mais cedo, em qualquer idade:
- Se tiver sintomas: um nódulo, retração da pele ou do mamilo, corrimento mamilar com sangue, alteração persistente. Aqui não se trata de rastreio, mas de avaliação diagnóstica. Não espere pela idade nem pela carta de convocatória: procure o seu médico de imediato.
- Se tiver risco aumentado: história familiar significativa, mutação genética conhecida, radioterapia torácica prévia, entre outros.
Nestes casos, o médico pode pedir exames “fora” das idades ou intervalos da norma. Chamamos-lhe utilização off-label das recomendações de rastreio. A norma foi desenhada para a população geral assintomática. Mas o médico pode, e deve, individualizar quando a situação clínica concreta o justifica. Não é contornar a ciência. É aplicá-la à pessoa que tem à frente.
E quem tem mais de 74 anos?
O rastreio organizado termina aos 74 anos. Isso não significa que a saúde da mama deixa de importar. A partir daí, a decisão passa a ser individualizada. Uma mulher de 76 anos saudável e ativa pode beneficiar de continuar a fazer mamografias. Noutra situação, com doenças graves, o exame pode trazer mais incómodo do que benefício. Converse com o seu médico de família. E, em qualquer idade, avalie sempre os sinais de alerta na mama.
Como sei se a mamografia que vou fazer é 2D ou 3D?
Três formas simples:
- Veja a prescrição: deve mencionar “tomossíntese” ou “mamografia 3D”;
- Pergunte na marcação: “a mamografia é com tomossíntese?”;
- Confira o relatório: o exame realizado vem sempre identificado.
Se a clínica só fizer 2D, procure outra que já disponha de tomossíntese. A transição está em curso. Nem todos os equipamentos do país foram ainda atualizados, incluindo nas unidades móveis, como explico a seguir.
O exame é comparticipado? Preciso de receita?
Sim, é comparticipado, e esta é uma das grandes novidades. Em 2026, o SNS integrou a tomossíntese na tabela de exames convencionados. Isto significa que o seu médico de família já a pode prescrever com comparticipação. Não precisa de esperar por um rastreio organizado: se tiver indicação clínica, pode pedir diretamente na consulta. A ADSE, outros subsistemas e a generalidade dos seguros de saúde também já a comparticipam.
E sim, é necessária prescrição médica. Porquê? Por três razões:
- A mamografia usa radiação ionizante, e a lei exige que a exposição seja justificada por um médico;
- A prescrição garante que a pessoa certa recebe o exame certo, no momento certo, considerando a sua história clínica, exames anteriores e fatores de risco;
- Assegura que há um médico responsável por receber, interpretar e agir sobre o resultado. Um exame sem seguimento é meio exame.
Onde posso fazer o exame?
Como a convenção é recente, muitas listas oficiais ainda não refletem quais os locais que fazem tomossíntese. Pode:
- Pesquisar na Rede de Prestadores Convencionados da ACSS (acss.min-saude.pt);
- Usar o mecomais.com, onde pode pesquisar por localidade e por convenção ou seguro, e pedir diretamente o agendamento;
- Ligar para a clínica e perguntar: “fazem mamografia com tomossíntese e com que acordos?”
E as unidades móveis da Liga Portuguesa Contra o Cancro (LPCC)? Já fazem tomossíntese? Depende da unidade e da altura.
Desde 2019-2020, a LPCC tem vindo a equipar algumas unidades móveis com tecnologia preparada para tomossíntese, sobretudo na região Centro. Até há pouco tempo, porém, esse exame era usado principalmente na consulta de aferição, quando a mamografia inicial já tinha detetado algo a esclarecer. Não era, portanto, o exame de primeira linha em todas as unidades.
Isto está a mudar. No início de 2026, a LPCC anunciou um investimento de 15 milhões de euros para transitar definitivamente para a tomossíntese como exame primário em todo o rastreio nacional, com um horizonte de cerca de 2 anos. Se isto se concretizar, Portugal torna-se o primeiro país da Europa com um rastreio populacional de base assente neste exame.
Ou seja: a transição está em curso, não concluída. Se quiser confirmar antes de ir à sua unidade móvel, pergunte diretamente ao Núcleo Regional da LPCC da sua zona.
O que aumenta o risco de cancro da mama? O que posso mudar?
Fatores que não controlamos: ser mulher, a idade (o risco aumenta com os anos), a história familiar e genética, a densidade mamária, a primeira menstruação precoce e a menopausa tardia.
Fatores que podemos mudar:
- Álcool: mesmo consumos moderados aumentam o risco; quanto menos, melhor;
- Excesso de peso e obesidade, sobretudo após a menopausa;
- Sedentarismo: a atividade física regular reduz o risco;
- Tabaco;
- Terapêutica hormonal prolongada na menopausa: a decisão deve ser sempre ponderada com o seu médico, pesando benefícios e riscos.
A amamentação, por outro lado, tem um efeito protetor.
Ou seja: o rastreio deteta cedo, mas o estilo de vida é a verdadeira prevenção, e está, em boa parte, nas suas mãos.
Em resumo
- Rastreio dos 45 aos 74 anos, de 2 em 2 anos, com mamografia 3D (tomossíntese);
- Comparticipado pelo SNS, ADSE, subsistemas e seguros, com prescrição médica; o seu médico de família já a pode prescrever;
- A ecografia complementa, não substitui;
- Nódulos conhecidos têm plano de vigilância individualizado; fale com quem o acompanha;
- Sintomas ou história familiar importante? Não espere pela idade do rastreio; fale com o seu médico de família;
- Fora das idades do rastreio, a decisão é individualizada com o seu médico;
- Nas unidades móveis da LPCC, a tomossíntese ainda está em transição, confirme antes de ir.
Se ficou com dúvidas sobre o seu caso concreto, a pessoa certa para as esclarecer é o seu médico de família, que conhece a sua história e o seu risco.
Notas e transparência
Este artigo tem fins exclusivamente educativos e informativos. Não substitui, em circunstância alguma, uma consulta médica. Também não estabelece qualquer relação médico-doente. As decisões sobre rastreio, exames e tratamentos devem ser sempre tomadas em conjunto com o seu médico assistente, que conhece a sua situação clínica individual.
A informação apresentada baseia-se na evidência científica e nas normas de orientação clínica em vigor à data de publicação (julho de 2026), nomeadamente a norma da Direção-Geral da Saúde sobre o rastreio do cancro da mama (2024). As recomendações podem evoluir. O mesmo se aplica ao estado da transição tecnológica de entidades como a Liga Portuguesa Contra o Cancro. Consulte sempre fontes oficiais ou o seu médico para a informação mais recente.
Declaração de interesses: o autor participou como perito na elaboração da norma da DGS de 2024 sobre o rastreio do cancro da mama. As opiniões aqui expressas são pessoais e não vinculam a DGS nem qualquer instituição a que o autor esteja ligado. O autor é cofundador da plataforma MECO+ (mecomais.com), mencionada neste artigo como ferramenta de pesquisa e agendamento de exames.
Em situações de doença aguda ou sinais de alarme, contacte o SNS 24 (808 24 24 24) ou dirija-se a um serviço de urgência.